sábado, 24 de maio de 2014

LOGO PERTO




“Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ela;  E porque estreita é a porta, e apertado, o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem.” – Mateus 7.13,14

Segui à risca a orientação: Natanael, vá de Confins pra Belo Horizonte de ônibus, lá pegue um táxi pro hotel. E assim foi a corrida mais curta e mais rápida da minha vida. Ainda bem, porque tive que aguentar um motorista mal humorado, havia ficado duas horas na fila de espera de passageiro, e quando saímos a bandeirada de quatro e pouco, teve um acréscimo de dois e pouco, e o resultado foi seis e pouco. Não tirei a razão dele. É que o logo ali, quando não se conhece as curvas e os buracos, fica muito distante, a ponto de não ser possível ver o fim.

Acho que é por essa razão que a porta para o Reino só é estreita, não tem comprimento, porque não é um corredor. Não é um passar pela porta e depois ficar sofrendo no túnel claustrofóbico que nunca acaba, e tem gente que chama isso de vida. Eu sei que esse sofrimento também foi alimentado pelo cristianismo do investimento, aquele que pensa a existência em longo prazo, como se o Reino estivesse apenas no fim. Só que não é assim. É por conta disso que o Reino é como o tesouro que está logo ali. É perto na distância e no tempo, é um ali, ou aqui, já.  Tão aqui e já que quase não dá pra acreditar que sendo tesouro, e tesouro mesmo, o sujeito só o encontre quando nele tropeça. Tropeçar é colocar o tesouro ao alcance do corpo, e tempo o bastante pra apanhá-lo, porque nem dá para pensar, e nem pode. É uma busca que está no sangue, parece que a gente já conhece, quando vê sabe o que é e quando se dá conta, já pegou pra si. Parece complicado, mas não é, porque perto e logo está também a moeda perdida. Está logo ali, debaixo da sujeira, bem pertinho, e sem dúvida que lá está. Diferente do tesouro encontrado, quase por acaso, a moeda é uma certeza do que fora perdido, do que deveria estar em outro lugar e se desmanchou na posse. Caiu, correu, se enfiou debaixo de alguma sujeira da vida, e vai ser preciso vassoura e tempo esticado de procura, mas é um tempo da certeza do está aqui e sei que vou achar, pode demorar, mas encontro, ora se encontro. Dentro de casa, minúscula casa de uma mulher pobre da antiga palestina, com pouco espaço pra procurar, só que o espaço não é o tamanho do quarto, mas a altura da sujeira, do pó, e de toda porcaria que foi juntada, e logo dentro de casa, como é que pode isso? Pode, porque é assim mesmo, o Reino se acha e se perde na intimidade. 

Só que complicado mesmo foi o filho pródigo, que tinha o Reino perto, o tesouro estava ali, não perdeu moeda, antes achou outras, e foi dar a volta ao e no mundo, como se pra chegar a um ponto, tivesse ido pelo lado contrário até completar a volta. A sujeira dele estava noutro lugar, largou o Reino logo perto, e se mandou, perdeu e teve que voltar, porque sabia onde encontrá-lo. Pro pródigo o Reino não estava no chão, estava em sua história e vida, centrado na compaixão do pai, e o Reino não era uma coisa, mas afetividade, presença pura do pai que valia a vergonha do retorno, e tudo isto é complicado, porque para o pródigo o Reino tinha ficado, mas também tinha ido com ele, e quando o procurou, o encontrou na memória e no pertencimento do que havia sido a vida toda e não tinha sequer percebido. Havia estado dentro do Reino, depois saiu, sem saber o que era, nem o que seria, mas voltou, porque precisava voltar.

Então, quando alguém perguntar pra você quem é o próximo e porque o próximo é chamado de próximo, certamente vai se lembrar de que é porque o Reino está no face a face, e a pessoa que é outro é também você, porque deve amá-lo como a si mesmo, está posto perto e logo. Quem encontra o próximo no caminho, pela parábola, se pensar dá a volta, mas se for a ele, apanhará o Reino com as mãos, o colocará num lugar pra ser cuidado, como se fosse ferido, e não saberá jamais que tudo aconteceu ao contrário, o ferido e o abandonado era você e foi o Reino que o levou pra ser cuidado, lhe deu abrigo e pagou a conta, porque você é o outro, e não sabia disso, e aí irá entender que a vítima da desumanidade e falta de solidariedade é você mesmo, e quem cuida do outro é como se abraçasse e cuidasse do Reino como se tivesse vida. E tem.

Então a porta, é só porta. No curtíssimo passo de travessia está o tesouro, o que fora perdido, e o outro, pessoa e próximo. Não tem corredor, apenas passagem. É um logo perto.

Natanael Gabriel da Silva

terça-feira, 13 de maio de 2014

DO OUTRO LADO DA RUA




“E eu vos digo a vós: Pedi, e dar-se-vos-á; buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á; porque qualquer que pede recebe; e quem busca acha; e a quem bate, abrir-se-lhe-á.” Lucas 11.9-10

Basta pedir, buscar e achar, certo? Claro que não! Será preciso controlar as variáveis, compreender a espiritualidade profunda, e se permitir fazer parte de um mundo que não nos pertence, como um transportar do recorte de uma vida à outra.

Eu sei que não é fácil, mas é. Lucas faz uma acorde genial: reduz a conhecida oração do Pai Nosso e a transforma em uma parábola. Deste modo migra diretamente da conversa e confissão para a vida. Na oração do Pai Nosso tem o pedir, o buscar e o bater à porta da casa do Pai, tem também pão, e ainda o socorro. E quando a oração vira parábola, a poesia se torna coisa e vida e nos leva para dentro do texto. Múltiplos personagens nos quais o interlocutor se vê como Pai, na forma de amigo, importunado, descansando, entregue ao desligamento como se já não estivesse mais ali onde poderia ser encontrado, a levantar-se lentamente, tentando compreender a razão de alguém procurá-lo em momento tão incomum. Só que o interlocutor, o ouvinte da parábola, é também quem importuna o amigo, que precisa de coragem na dúvida de ir, ou não, por incomodar e pedir o que aparentemente deveria ter de sobra. Poderia ouvir do amigo o apontamento do descuido, da falta de zelo, como um que tem descaso pelo que possui, que não está preparado nunca para qualquer situação, e assim voltar com as mãos vazias, e o amigo que parecia amigo, não era amigo, se irritara por já estar dormindo, a porta que ficara aberta o dia todo, fora fechada, e os filhos, todos, já na cama. Acordar a família inteira, sem razão, então tem que ter coragem, mesmo consciente de que pediria pão, só pão, coisa que com certeza o importunado à meia-noite teria. Coragem pra atravessar a rua, ir pensando e argumentando consigo mesmo no ensaio de possíveis perguntas e respostas, mas quando se dá face a face com o amigo da parábola, ou o Pai na oração, no silêncio da meia-noite, aí é diferente; quando se está diante, basta pedir o essencial, e que sai quase balbuciado: preciso de pão. Voz baixa, sem autoridade ou exigência. Nem tenta trazer à memória do Pai, ou amigo, que ele prometera isso ou aquilo, porque isso seria uma tentativa de inverter o constrangimento, como se incomodar fosse virtude.

Pois é, Deus, como o Pai, ou amigo, sendo incomodado é uma imagem pouco comum, mas necessária. É o limite, à meia-noite, e tem gente atravessando a rua pra pedir qualquer coisa, de qualquer modo, mas quem é amigo, amigo mesmo, atravessa a rua como o suspiro da única possibilidade e socorro. Pedir pão, é pedir pão, não é outra ou qualquer coisa. Pão aqui está no lugar de pão, nada mais.

Daí, você e eu, interlocutores e em diálogo com o texto, quando personagens dos que batem à porta, temos vergonha de pedir. É, vergonha de não ter feito o mínimo necessário, e vamos ter que novamente atravessar a rua, não deveria ser assim, mas será porque não tem outro caminho, incomodar de novo, como se não tivesse havido um antes, e perdemos a conta de quantas vezes atravessamos a rua. Envergonhados batemos, e o paciente Pai, paciente de um modo que a nossa vergonha não pode compreender, porque se fôssemos ele, não faríamos o que faz, abre a porta que parecia fechada, escancara a despensa de graça, onde parece que o que mais tem é pão, e enche a mão da gente pra atravessar a rua no retorno. A gente sabe que incomodou, não faríamos o que Ele faz. Só que não é assim, e nunca será. Atravessamos a rua e iremos atravessá-la outras tantas vezes, e em cada uma a sensação será como se fosse a primeira; só que o Pai, como um amigo, sempre do mesmo jeito, com a mesma paciência, outra vez, e outra vez, abrirá a porta que parecia fechada, mas não está, não dirá nada, mesmo que seja outra vez à meia-noite, na esperança de que um dia a gente aprenda a cuidar da própria despensa. Só que Ele já sabe que jamais iremos conseguir.

É por conta disso que a parábola não tem fim.

Natanael Gabriel da Silva

quinta-feira, 8 de maio de 2014

O MAL DIANTE DA GRAÇA




“E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? E lhe respondeu, dizendo: Legião é o meu nome, porque somos muitos.” Marcos 5.9

O mal é assim mesmo: não é possível conhecê-lo pelo nome, só pela quantidade. Um pacote. Um monte. Qualquer coisa sem identidade, só massificação. Um igual ao outro como se fosse farinha, e quando vira plural, aparece como Legião,  um exército sem rosto, amontoado de gente em tempo de guerra, um por sobre o outro; e tem gente que ainda se preocupa em fazer conta de quantos espíritos possuía aquele que ficou conhecido como gadareno!

Devemos ao desinteresse de Jesus, o desconhecimento que temos do passado daquele infeliz. Desinteresse que deveria virar doutrina, aos aficionados pelas regras, e seria a doutrina do ocultamento, da não curiosidade, da ausência de importância às causas e motivos. Contudo, podemos imaginar que o tal, que se tornara um balaio do mal, tivera um passado comum, de gente comum, e que num dado momento foi abraçando e sendo abraçado pelo mal, numa espiral que terminou no banimento, exclusão da sociedade a qual pertencia, na trilha do anonimato, que nesse caso significava despessoalização - descaracterização do humano como humano; e o fundo do poço estava, para ele, nas cavernas. Escondido, irado, desequilibrado, furioso, transformado em coisa. Foi então que o quase ser humano, a legião que o tomara para si, e Jesus, finalmente se encontraram. A narrativa é  um sobrevoo de contraste entre o mal, profundamente mal, tão mal que não poderia ser pior a deparar-se face a face com a plenitude da graça, incompreensivelmente perfeita, onde não poderia haver melhor, já que graça é plural no singular e vem sempre no superlativo.

A única pergunta foi pelo nome, não pelo passado ou motivo do banimento, e a resposta não veio da pessoa, mas do mal que o possuía. Conversa curta. O mal ameaçado, se submetendo, se curvando a espera do veredito do que provisoriamente poderia ser chamado de própria vida (na falta de uma palavra melhor), para depois, incompreensivelmente, ser lançado aos porcos, o pacote, um monte, a massa disforme, daí foi a vez dos animais, como um monte, penca, se lançarem pelo precipício, como um suicídio imotivado de uma manada inteira. Não tem teologia que explique isso. Se explicar, haverá controvérsias, porque um animal possesso é o cúmulo da malignidade, por conta de ausência de motivo, porque porco não tem ética, nem caráter, nem pecado, nem vontade ou consciência, e ninguém no nosso atual espaço público de cidadania homologaria o feito. O porco já era um banido e imundo, o que tornava o mal um morador da imundície, se é que isso possa fazer sentido - o mal no interior da imundície, ninguém merece, nem o porco.

Então o mal foi pro mar, mas não morreu, porque todo mundo sabe que o mal não se afoga, nunca morre, vai e volta, e quando você pensa que ele se foi, ele entra e se apresenta num dia qualquer, na sala de estar da sua casa, na zona do conforto depois do stress do dia, então toma assento ao seu lado enquanto você come pipoca e vê televisão, e pergunta de maneira pausada, lenta, calma e irônica, com um sorriso próprio de deboche: - E você como vai? Pois é, o mal não morreu naquele dia. Mas, deixe o mal pra lá, com os seus porcos suicidas e esparramados no mar, pois o que importa é o ser humano, aquele ser humano, que recuperou a sua humanidade, conversou, ainda sem nome, e se apresentou à sociedade que o havia banido como aquele que dava até medo por ter sido libertado do mal, de uma vez, completamente, sem perguntas, expectativas, cobranças, recomendações, exortação, ou qualquer tipo de doutrinamento por parte do libertador: bastava devolver-lhe a vida, porque na graça a vida vem antes do que qualquer coisa.

Depois? Bem, depois o sem nome virou profeta, pregador e mensageiro, é claro! Foi partilhar o plural e o superlativo da graça como expressão de gratidão, porque graça se retribui com graça. Então sumiu e virou texto.

Natanael Gabriel da Silva

terça-feira, 6 de maio de 2014

A ERA DA INOCÊNCIA




“Jesus, porém, vendo isto, indignou-se, e disse-lhes: Deixai vir os meninos a mim, e não os impeçais; porque dos tais é o reino de Deus.” – Marcos 10.14

A inocência é uma contradição: quando se toma consciência dela, já não é mais inocência. É como a alienação. Estar alienado é a condição de quem desconhece o que seria a própria alienação, pois quando esta é colocada a descoberto, já não há mais alienação. É algo como um sonho, que Tillich chamou de “inocência sonhadora”, embora no pensamento dele este conceito tenha um significado bastante próprio, como se fosse uma pergunta da alma, uma busca da profundidade humana que, quando a gente pensa nela, a pergunta já aconteceu. Freud, na Interpretação dos Sonhos, tentava encontrar o sentido destes antes de que fossem articulados em suas possibilidades de interpretação, daí o relaxamento de quem precisa retirar do fundo, do que o inconsciente revelou durante a noite, e assim, falar sobre ele como um retirado diretamente. Só então o sonho se torna mediado pelas palavras.

Só que a cultura da época ainda não conhecia Schopenhauer, nem Nietzsche. Assim a profundidade da profundidade, o que estaria mais oculto, no incontaminado, onde até mesmo o pensamento não alcançaria, aquilo que estaria escondido por detrás de uma vida que ainda ninguém escreveu, que é apenas promessa, o indizível, o que não se pode alcançar, onde a razão não chega, as doutrinas não entram, os sistemas religiosos ainda não estão presentes, o preconceito ainda não se constituiu, no limite da “zona do horizonte”, onde não tem nada, o lugar do completo esvaziamento, e a pessoa é só pessoa, como um sendo apenas ser, e um ser apenas sendo, tudo isso mostrava que a criança era o mais próximo distante que se podia alcançar. Isto é, próximo, mas que ainda não era suficiente, e ao mesmo tempo se dava como possível porque as crianças existiam, conviviam no meio daquela geração perversa, da qual não sobrara nada. Jesus marcava, assim, o que poderia ser chamado de: a fronteira da espiritualidade.

É claro que os sistematizadores, dogmáticos e afins, exegetas e confessionalistas irão afirmar que a expressão “dos tais é o reino de Deus” se refere, de maneira reducionista, a um lugar futuro, um depois, uma promessa, e irão perder as virtudes da espiritualidade profunda, aquela da qual não se pode tirar preconceito, porque não tem; é, aquela uma que não é uma imposição e retalhamento da liberdade, isso mesmo, aquela que todo mundo sonha, ninguém consegue retornar ao seu princípio e assim a vida religiosa prossegue no discurso de que, afinal, todos somos pecadores, limitados, ninguém tem condição de ser desse modo, e deste modo vamos justificando a desumanidade, aceitando a política do poder, a corrupção que interessa, a inclusão ou a exclusão do pertencimento ao cristianismo deste ou daquele, ao esquecimento do reaprender a linguagem das brincadeiras que não levam a nada (e porque haveriam de levar?), terminam terminadas, e fica o cheio de suor depois do intervalo das aulas, um desajuste aqui, outro ali, mas quem se importa?

Você acha que as crianças entenderam o que Jesus falava? E precisavam entender? Sabiam lá o que significava uma bênção? Sabiam nos braços de quem estavam? É que criança aqui, como pessoa e vida, é a metáfora da pureza oculta, e reino de Deus é a plenitude da existência. Quando as duas coisas acontecem juntas, tem-se aquilo que pode ser chamado de “pertencimento”. Este é um fazer parte com fundamento e base de uma teologia da inocência, que não pode ser teologia, sob pena de esvaziar a inocência.
E fica nisso.

Natanael Gabriel da Silva

terça-feira, 29 de abril de 2014

A PRIMEIRA MISSIONÁRIA ou AS IGREJAS DAS DONAS DE CASA


(resposta a um artigo de jornal - um pedido de desculpa à minha pastora)

Deixou, pois a mulher o seu cântaro, e foi à cidade, e disse àqueles homens: Vinde e vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito; porventura, não é este o Cristo? Saíram, pois, da cidade e foram ter com ele [Jesus]. -  João 4.28 a 30
 
Caso Jesus fizesse parte de uma das comunidades que conheço, que bem poderiam ser identificadas como “as igrejas das donas de casa”, certamente teria dito aos homens que chegaram noticiados por uma mulher, que a vinda deles não valia, que seria necessário começar tudo de novo, que apenas um homem, o autorizado a falar, proclamar e ensinar, teria legitimidade pra dizer alguma coisa em nome de Deus. Então vamos fazer assim, diria Jesus, eu vou chegar outra vez perto do poço, você, é você mesmo, você que é homem, chefe de família vem também se aproximando, é assim mesmo, com a sua mulher, isso, daí ela vai ficar olhando a gente conversar, depois então você vai pra cidade, porque o evangelho que estou anunciando será exclusivo dos homens, mesmo que isso pareça teatro.

Pois é. Não foi assim. A mulher, que ficou conhecida como adúltera pelos intérpretes (homens é claro), que bem poderia ser a samaritana, como tem sido corrigido, não tinha o perfil esperado das igrejas das donas de casa, embora cuidasse da família quando de sua estada no poço. Estava tudo errado, e Jesus também. A vida dela era fora dos padrões: havia se casado cinco vezes. Conversou com um estranho. Não conversou respondendo perguntas, não. Fez colocações sérias. Mostrou conhecer a história de seu povo, expectativas, os lugares do sagrado, sabia o que era um profeta, não só sabia como dava-lhe crédito, entendia da promessa da vinda do Messias, não só da vinda, mas da missão dele, o que ele provavelmente diria, qual seria o seu perfil, e tanto sabia que fez o encaixe entre o que pensava e a pessoa de Jesus e não teve dúvidas: “não é este o Cristo?” Pergunta retórica, porque antes retornou pra cidade, sem cântaro, sem nada, pra ser mais rápida, não deu água a beber a Jesus, como este pedira; sem dúvida, a convicção faz a pressa.

Assim se fez, feita de vocação e missão para uma cidade inteira, a primeira pastora-missionária, antes de Paulo, antes da famosa e discutida confissão de Cesaréia por Pedro, antes dos milagres narrados por João, já que o único milagre que vira fora o de ter tido contato com o espelho da própria vida, ter conversado com uma pessoa que, ao falar dela e sobre o seu passado fez com tanto respeito e humanização, que ela simplesmente o viu como um profeta, não interrompeu o diálogo, nem revidou com agressividade. Daí você fica pensando se o reconhecimento dela de que Jesus era o Messias teria sido em razão do diálogo de profundidade, ou se pelo tratamento humano que recebera, ou se tudo isso estava misturado, o humano e o divino, a pessoa e o gênero, o ser humano e sua individualidade, sua história e esperança. É claro que as comunidades, ou as “igrejas das donas de casa”, alienadas, expropriadas por um falso cristianismo que não entende do humano, nem da história, nem das leituras das injustiças causadas pela violência do sagrado, muito menos de interpretação bíblica, embora dela falem como inerrantes interpretes, diriam: Sim-senhor; não-senhor, faço-sim-senhor, estou-aqui-senhor, e assim confirmariam que a nossa caminhada na libertação feminina ainda está longe, mas longe, muito longe, de ser considerada a legítima luta contra um dos pecados sociais mais antigos da história.
 
Será verdade que ainda estamos discutindo os direitos da mulher?

Natanael Gabriel da Silva

domingo, 27 de abril de 2014

UMA METÁFORA



Um deles feriu o servo do sumo sacerdote e cortou-lhe a orelha direita. Mas Jesus acudiu, dizendo: Deixai, basta. E, tocando-lhe a orelha, o curou. – Lucas 22.50,51

O ódio é como um trem em alta velocidade: ou termina num desastre, quando termina, ou vai parando aos poucos, ameaçado pelo amor.

Só que tem sempre alguém que acha que será capaz de colocá-lo em movimento e depois simplesmente desligar a chave geral, como se a inércia não fosse a virtude principal do deslocamento do ódio. Nunca deu certo, mas também nunca deixou de haver pessoas assim. Passa sempre pelo despertar da fagulha que leva ao desajuste coletivo e aos poucos o inconsciente, também coletivo, se responsabiliza pelo movimento e daí começa a inércia. Nem sempre a memória ou o conteúdo da motivação conseguem ser explicadas, e fica o movimento pelo movimento que dá uma ideia de que todos estão numa única direção com um único sentido possível. Deste modo o ódio adquire vida própria, vontade própria e quando alguém pergunta onde estaria a chave que dera início ao movimento, descobre que a chave não existe, ninguém sabe onde fica, nunca ninguém viu embora todos soubessem da existência. Quem disse que se tratava de um botão vermelho escondido debaixo do painel, descobre que ele mesmo nunca, jamais o vira, depois fica em dúvida se foi um sonho que se transformou em pesadelo, e por mais que queira saber quando foi e quem e qual a razão de ter sido acionado o ódio ao movimento, o anônimo desaparece, como se nunca tivesse havido, para então ser esquecido. É claro que a personificação se dará contra quem, principalmente, defendia o discurso do amor. Será este tido como responsável, pois se há uma coisa que ódio faz, e consegue, é adoecer o amor e tentar anular a legitimidade de quem o defendia, só para mostrar que com ele, o ódio, o jeito não é o amor, mas a identificação e punição dos culpados. Enquanto busca os culpados, o ódio coletivo consegue despertar até nas pessoas que com ele não se afinavam, o que têm de mais primitivo. O que era enorme, fica ainda maior, e a vingança, que alimenta o ódio, e o ódio, que alimenta a vingança, criam o círculo vicioso até que alguém, em algum momento, terá a desventura de lembrar-se do amor. E é assim que o ódio se alimenta do ódio e o amor fica à espera ser lembrado para então reiniciar, outra vez, e muito lentamente, uma nova etapa de redescoberta da vida.

Quando Jesus colocou no lugar a orelha de um dos servos do sumo sacerdote, que segundo João chamava-se Malco, cortada com ódio por Pedro, não fazia apenas uma cura, nem queria somente restaurar a integridade de uma vida, ou ainda afirmar que quase sempre o ódio fere quem não deve: tratava-se, na verdade, de uma metáfora viva. Ou a cruz começava com o amor e com o perdão, ou não teria sentido.

E foi assim que começou o cristianismo.

Natanael Gabriel da Silva

segunda-feira, 21 de abril de 2014

O AMOR E A DÍVIDA


(Este é um texto antigo. Escrevi a primeira versão em 1995. Algumas alterações foram necessárias para que o discurso fosse atualizado. Hoje, me lembrei dele, e aqui segue...)

A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros...    (Romanos 13:8)            

O amor é dívida. Independe do querer, ou não querer, boa ou má vontade. Não está relacionado a qualquer tipo de condição, quer seja do amado ou de quem ama. Não necessita de reciprocidade, nem mesmo de reconhecimento. Quem ama, ama pelo simples fato de amar, sem visualizar recompensa, pois nada que se receba de volta, por maior valor que tenha, jamais poderá suplantar o amor dispensado, ou proceder a uma quitação justa. O pagamento do amor, é amar. Como nunca será possível saber qual seria a intensidade do amor de alguém, a solução é devolver o amor na capacidade máxima do que se pode, daí a conta da totalidade da alma como o montante único de validação. Esta será a única garantia de alguém poder amar na mesma proporção em que foi amado. Não é uma questão de quantidade, mas de potência. Não é um compromisso como se fosse acordo, como se num dado momento dois resolvessem assumir um pacto de se amarem. Terá sempre um início unilateral. Alguém terá que amar primeiro. Foi por este princípio que o amor foi disponibilizado, um estando antes, para que o constrangimento jamais fosse traduzido como obrigação ou comando, e se nos O amamos é porque Ele nos amou primeiro, diz João. Disse e assinou embaixo, porque o amor veio da plenitude do Pai, e do exagero do Filho. Não suportamos a avalanche de amor, nos entregamos, e ainda fizemos pouco. Teremos sempre a sensação que jamais iremos oferecer a mesma magnitude de amor. Fica na paz: a desistência de resposta à altura, não deve gerar culpa, nem medo, muito menos inferioridade, apenas rendição.

Assim, só o amor conquista e exerce o fascínio do constrangimento ao amado, desarma a guarda, estrangula a incapacidade de afeto, restaura ao humano a dignidade da limitação, por mais contraditório que isso possa parecer. O amor é terapêutico. Remédio que passa pelo coração e é transferido para o outro, como se, de passagem, não optasse por nenhum paradeiro. Vai e fica, parece que foi, mas nunca saiu. É ele que faz caminhar uma segunda milha, mesmo que injusta e incompreensível (Mateus 5:41); oferece a outra face, mesmo não concordando com o agressor (Mateus 5:39); faz passar uma noite num jardim, mesmo que seja em agonia (Marcos 14:32-42); transforma riquezas em coisas sem qualquer importância (Filipenses 3:7); ultrapassa os limites do tempo e quarenta anos, serão apenas quarenta anos (Êxodo 2:11 a 3:22); faz do Caos, um paraíso (Gênesis 1:1-2); torna vaqueiros em profetas (Amós 7:14); extrai de prisioneiros, a gratidão (Atos 16:25); dá resistência, esperança e vida ao que está abraçado com desumana agressão (II A Timóteo 4:6-8); faz a terra dos chacais ser conquista pela vegetação do pântano (Isaías 35:7); transforma corações secos em fontes (João 4:10); quebra preconceitos (Atos 10:1-48). Incondicional, o amor faz um rico debruçar-se aos pés do pobre (Marcos 10:17-22); questiona o sono e remete, quem dele não entende, o  caminhar pela noite (João 3:1-21); traz um filho de volta para casa (Lucas 15:11-32); faz do bruto, a resplandecência do rosto do Santo (Gênesis 33:10).

O Amor é o milagre que tem a legitimidade em sua própria essencialidade. Então, se é dívida, é uma ausência. Sendo ausência, não nos pertence. O temos, sem possuir. E quando compartilhamos, oferecemos o que não é nosso, pois o amor é uma condição de meio, está no deslocamento, no movimento em direção ao outro, o seu pertencimento está no público, na alteridade. Por conta disso, tem a natureza reflexa, como um espelho: ao ir, também volta; duplica de tamanho e intensidade: volta no tanto que foi como se fosse um reflexo, mas atravessa o espelho e atinge o outro sem nada perder, como se não tivesse refletido. É um milagre, eu sei.

Não há nada mais belo na vida do que saber amar. Não há alegria maior do que ser amado.

Natanael Gabriel da Silva