segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

METÁFORAS - a propósito do Salmo 127


É claro que vou assumir aqui o conceito de Ricoeur, compreendendo a metáfora como aquela que é portadora de um excesso de sentido. Literalmente seria “transportar para outro lugar”, o que pode não ajudar muito. A ideia clássica de que a metáfora é uma forma diferente, como figura de linguagem e que substitui outra palavra, simplifica demais o seu sentido. A metáfora, como linguagem própria,  se refere a algo que só pode ser expresso por meio dela. Com outras palavras, ou utiliza-se a metáfora, ou a possível compreensão, no ponto de partida, já se tornou mais pobre. Isto porque a metáfora não se submete à avaliação de exatidão do certo ou do errado a que os conceitos estão sujeitos. A amplitude e profundidade de uma metáfora a faz superar tal crivo para que o seu significado e valor como discurso de superação se dê como compreendido sem ser possível esgotar o seu sentido. Deste modo, a metáfora é um discurso aberto e o aproveitamento pelo leitor vai depender mais do nível de profundidade capaz de nela imergir, do que a subsunção à legitimidade. Uma metáfora não é certa, nem errada, é apenas uma metáfora em diálogo com o interpretante.

Ensaiar um significado a uma metáfora é reduzir o seu sentido, e tal hermenêutica será flutuante a depender do universo e significado simbólico do interlocutor, ou do leitor, que dará a ela o possível significado e se tornará assim autor da leitura da metáfora, que ficará viva para significar outra coisa, para outra pessoa, em outra ocasião.

Daí, a metáfora precisa ser compreendida mais por meio da dúvida que das afirmações. No salmo 127, por exemplo, o que seriam “casa”, “cidade”, “trabalho árduo” e “genealogia” para o salmista? Talvez fossem símbolos da proteção e do abrigo. Talvez casa fosse aqui o limite do que está mais próximo e íntimo, onde se forma o início do início de uma geração, com a família crescendo em volta, como uma grande vila, cujo atomismo familiar que a nossa geração da madame Frigidaire construiu, diria Belchior, não compreende e a caça agora vai para a geladeira como forma de consolidar o isolamento e a provisão egoísta para o futuro, ao invés do compartilhamento e irmandade da tribo que fazia festa quando todos se alimentavam da coragem de um que trouxera para casa o resultado de seu trabalho e que era divido e saboreado por todos. Talvez a cidade seja o lugar coletivo desde espaço sonhado como justo, igualitário, murado, e o cenário aqui é urbano, feito fortaleza intransponível onde a vida se desenrola e se desenvolve por meio da identificação cultural, donde se é, onde se quer ficar, onde é o lugar da memória e das gerações. Destruir ou perder a cidade, não é apenas perder um lugar, mas o sentido do que se é, das sagas da conquista dos antigos que ali chegaram, cultivaram, sofreram e formaram a coletividade, parceira, cúmplice e solidária, face a face no horizontal, e os filhos dos filhos e dos filhos na vertical ascendente, para um distante cujas histórias são contadas misturadas com mitos e eventos narrados pelos mais velhos nas festas coletivas, e o que menos irá importar será a verdade, mas o imaginário heroico que já nos fez ser o que somos.

Da casa, para a cidade e os patriarcas das sagas, talvez o salmista queira problematizar o enfrentamento do futuro, do valente que precisa da aljava cheia de flechas para a defesa da vida, da história, da memória e do lugar sagrado onde está a família, o clã, talvez a tribo, e na cidade o centro do poder do império e o templo. E o valente vai enchendo a casa de filhos, que são as flechas, seu instrumento de defesa, para que estes filhos gerem outros filhos e irão resguardar o lugar da vida contra qualquer inimigo, porque a memória, as tradições, a história, as sagas ficarão perpetuadas por meio da defesa imposta nos portões, mesmo que até os portões, não sejam portões, mas apenas portais que abrem o tempo para a existência contínua.

Talvez, mas só talvez, seja a vida celebrada pelo salmista, seu espaço existencial, fragilidade e dependência de que Santo esteja, para além da metáfora e de seu excesso de sentido, preservando a história e dele cuidando como se tudo a Ele pertencesse; e ao ser humano, construtor da casa, da cidade, do trabalho e pai das gerações futuras, ficasse apenas reservada a devoção, a submissão e a obediência.

Apenas talvez.

Natanael Gabriel da Silva



sábado, 10 de setembro de 2016

A ZUNGUEIRA SAMARITANA E A PRINCESA



A ZUNGUEIRA SAMARITANA E A PRINCESA

Disse-lhe a mulher: Senhor, dá-me dessa água para que eu não mais tenha sede, nem precise vir aqui buscá-la.” João 4.15

Daí vi a chamada de um retiro de mulheres, “Princesa sim! Meu Pai é o Rei” e passei por uma rua qualquer em Luanda e lá ia a zungueira, carregando quase de tudo sobre a cabeça, bananas aos cachos, batatas, panos, biscoitos, pães, abacaxis, laranjas, limões, doces, sonhos, criança nas costas, vida difícil de quem traz para casa os cuanzas que servirão para dar comida aos miúdos, bebida ao marido, e depois continua a dar banho na prole, uma ou duas com ela o dia todo, outras a esperam em casa. É uma mulher, como outras tantas, possui a inexplicável vaidade, vestida de África, roupas coloridas, carrega os desejos, igreja aos domingos, e na segunda as bananas, batatas, filho nas costas e a vida gira sem a realeza prometida, ou esperada, alienada pela própria felicidade e desconhecerá a miséria em que vive e não muito, talvez o mais tardar aos quarenta e cinco, a brevidade indesejada e a infinita liberdade; mas por enquanto continuará a tomar banho de caneca, suplicando a providência e proteção contra as doenças da fome.

A samaritana era uma quase zungueira, se é que isso possa existir, pois afinal não é todo mundo que carrega uma lata na cabeça que pode evocar o pertencimento ao grupo que está do lado de fora da realeza e que reside pouco abaixo das bananas. Contudo, a depender do conceito do que poderia ter sido uma zungueira no primeiro século, a samaritana estava meio por ali, bem perto. Tivera cinco maridos e nem vou discutir aqui se fizera o que era certo ou errado, até porque nem Jesus se interessou em perguntar. Sendo ou não zungueira, com certeza a samaritana sem nome não era princesa, não mesmo. Também não ficou sendo depois, e o que a cativou não foi necessariamente o conteúdo do que descobriria, mas a aceitação de quem, com profundo respeito, conversou com ela e nem se preocupou com a proibição, não perguntou por onde andava a consciência, não indagou sobre moralidade ou virtudes, e nem dela se afastou com a repulsa natural da santidade. Apenas palavreou como quem ampara uma zungueira num dia qualquer e dá a ela o que não estava procurando e que nem sabia direito da existência e possibilidade, porque o Pai não é só rei, e nem isto é o mais importante. O pai é o fazendeiro que espera o filho voltar para casa, de qualquer jeito ou modo, é o pai do eu sei que sempre me ouves e a vida sai do túmulo depois de quatro dias, porque o pai, é pai da vida, e olha pro filho que está ali entregue aos limites da existência humana e declara, este é o meu filho amado em quem me alegro, e tem pai no filho carregando crianças no colo e dizendo ser delas o Reino dos Céus, e dá-lhe o Pai do nas tuas mãos entrego o meu espírito, porque o pai recebe, recolhe, agasalha e abriga. É o Pai do Reino, mas aqui Reino significa outra coisa, e os filhos são servos, não príncipes, nem princesas, talvez zungueiras e quem sabe samaritanas.

E a zungueira, feminina, mulher, mãe, explorada, sem ser princesa, sorri.

Natanael Gabriel da Silva, Luanda


sábado, 27 de agosto de 2016

A ALEGRIA E O OUTRO


“Assim, decidi que não mais iria visitá-los com tristeza. Porque, se vos entristeço, quem então me alegra [...]?”

Não, o problema que Paulo tinha com a comunidade de Corinto, conheço. Independente do motivo que ocasionara a desconfiança, alegria gera alegria, parafraseando Gentileza, e o recebimento da alegria que retorna, só pode acontecer se um dia ela tiver ido. Coisa simples. O outro é sempre o eco da minha alegria. E a alegria, fundamentada na compreensão, se desloca, ora vagarosa, ora a escoar por um novo caminho, ora a despencar numa avalanche, como se só houvesse um para baixo. Não são metáforas suficientes, eu sei, mas a alegria que vai e retorna não segue os padrões da física, não respeita a lógica, e não tem sentido. Ela só descobre o caminho quando a trilha já tiver sido traçada. A alegria quando manifestada por meio de graça e afeto, impulsionada pela fraternidade, humildade e compreensão profunda do outro, descola-se com a força necessária para romper as muralhas do medo, do outro é claro, ou abismos, ou esconderijos de quem se oculta da vida. É isto mesmo, a alegria tem a capacidade de fazer curva, como a luz de Einstein, e toma o outro pelas costas e desprevenido, como se fosse traição, caminho certo do coração, e torna a vítima do amor um indefeso, desarma, desprotege, desencarna e ensina: a alegria é possível, apesar do traído pela curva ainda não saber o que ela significa. Não saber, vírgula, que não sabia, pois uma vez experimentada, a alegria muda e emudece. Pode demorar a acontecer. Ficará na memória de um algo em algum lugar que fora provocado por alguém cuja lembrança às vezes não dá conta em responder, e a alegria, que reside no inconceito, sem conteúdo ou evento, simplesmente acontece.

Daí Paulo olhou para comunidade, e o emaranhado que se tornara aquele relacionamento, cheio de dúvidas, desencontros, desajustes, e pensou que poderia perder o retorno da alegria, pois ela só poderia vir de lá. É claro que o ir em tristeza, que aparece no texto, pode ser lido como um abrandamento de discurso e não um simples sentimento. Talvez fosse sua nítida visão de que, o que estava ruim, poderia ficar pior, o conflito ampliado, o abismo aprofundado, a rigidez solidificada, e a ruptura emergindo de forma rasgada, e nem corte cirúrgico seria, mas o rompimento desfiado com base na força de separação. E quando se rompe, não há mais discurso, não tem mais estrada, não há mais caminho, nem ponte, e a alegria fica aprisionada, embotada, isolada, apodrece e morre, pois se há alguma coisa que não subsiste no singular, é a alegria, e é por esta razão que a alegria não é um substantivo singular feminino, mas é plural. Ela se dá sempre no duplo, porque vai e vem, vem e vai, continuamente, até que alguém decide colocar a pedra de Drummond no caminho, ou a parede sem porta de Pessoa, e a perda é de todos, por mais que se queira dizer isso ou aquilo, justificar assim ou assado, dizer que a culpa de quem fez implodir a ponte foi do outro, ou a causa é desconhecida, em razão de algum inexplicável fato, coisa do acaso, das condições impostas por motivo de força maior, o fato é que as explicações não são eficazes na construção de pontes. As explicações, são apenas explicações. Deste modo a alegria, sem dois humanos, em interpessoalidade, autenticidade e liberdade, evapora e provavelmente irá visitar os lugares da aceitação, pois não pode ficar perdida. Nada mais triste que uma alegria sem ponte, estrada, caminho, ladeira ou trilha, pois ela só pode ir, e retornar, impulsionada por uma pessoa; sua essência é a liberalidade, sua paixão é o sabor da felicidade, sempre abrigada pela compreensão e só cabe, de tão grande, quando a alma é larga o bastante para agasalhá-la.

Paulo voltaria a lamentar pela tristeza que fora causada e faz um esforço para separar o que ele chama de tristeza que vem de Deus e a tristeza gerada pela ação da cultura e existência. A tristeza vinda de Deus pode ser explicada pelo sofrimento do viver. Agora, a tristeza causada pelo humano, segundo Paulo, gera a morte (II Coríntios 6.10).

Ele tinha razão.


Natanael Gabriel da Silva, Luanda 27 de Agosto de 2016

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

SOMBRAS

“Os quais servem de exemplo e sombra das coisas celestiais…” Hebreus 8.5

O complicado livro de Hebreus e que demorou para ser incluído entre os denominados textos sagrados, tem um autor que já falava do Eterno como aquele que tem uma reserva de sentido. Ninguém sabe se Hebreus é um tratado, uma carta ou um sermão. Não é possível afirmar quem seria o autor, nem quando teria sido escrito. Tem um judaísmo helênico como conteúdo, mas segue uma estrutura literária judaica. O livro faz um contrabando do imaginário religioso do Antigo Testamento, em seus ícones mais significatios e os supera em significado transformando tudo o que era, como se não fosse, ou tivesse sido apenas pela metade. Quando se pensava que o caminho do sagrado tinha sido vencido, lá vem Hebreus assumindo o discurso da sombra.  Do imaginário religioso judaico o autor de Hebreus retira a eugenia a partir de Abraão, o templo, os sacrifícios, a Lei, e por aí se vai, e os transpõe para a pessoalidade, ou corpo, como diria Paulo em Colosensses 2.17, do Cristo. Deste modo Hebreus transforma o que parecia real como sombra. Pensava-se que fosse real, histórico e encerrado, com liturgia e código, mas tudo então é transformado em rastros, no caso, sombras. Assim se dá o Cristo, que não é um templo, no sentido objetivo. Nem Lei, no sentido positivo, ou um rito no sentido estético. Cristo é pessoa, corpo, e não é possível um pertencimento, com e nele, por meio do imaginário superado e tido como sombra. Com outras palavras, Cristo, pessoa e corpo, interage com o outro por meio do relacionamento, aproximação, interiorização e pertencimento. Não mais seria por meio dos ritos, muito menos de templos. Ao pertencimento que torna o discípulo pertencido a Cristo, o vínculo é chamado de fé. É por esta razão que o capítulo da fé está em Hebreus. Esta é a substitutiva dos ícones do sagrado, que se tornaram sombra, e se realizaram na pessoa. Todavia, acaba o autor de Hebreus a penetrar em outra sombra, não limitada em sentido como a anterior, mas exatamente em razão de seu contrário, por ter um excesso de significado; também é sem a objetividade, como no caso das sombras que foram sucedidas, e igualmente possui múltiplas possibilidades interpretativas.

Conversar sobre teologia é dialogar sobre estas sombras. Todos igualmente procuramos, por meio da lógica de um discurso, identificar os traços de quem lá está. E é quem mesmo, por não ser coisa, ou um inventado. O segredo, e o que faz da teologia, teologia, é saber que Ele está lá. O Cristo é o próprio conteúdo, mas tem que ser sombra para que não haja aquele que O tenha sob domínio hermenêutico. Cada qual vai desenhando o contorno que vê e é capaz de afirmar com toda a segurança que um dia conseguiu limitar a sombra pelas palavras, juntou expressões, deu um corpo que parecia ser o da sombra e irá defender o encontro como o sublime como se tivesse sido o único possuidor e detentor do real sentido e conteúdo. Sairá fundando grupos, organizando sistemas. Os tais serão objetivos, terão endereço, liturgia, escala de comando com apóstolos e apostolas, comandará grupos com afirmações categóricas que dará mais verdade ao conteúdo das palavras que tentaram desvendar as sombras, e porque não dizer, a aprisionaram. Só que um dia este, o possuidor e detentor do discurso único e correto, seja singular ou coletivo, acaba. E o excesso de sentido, para a sobrevivência do imaginário que não pode ser contido, permanece, sai do domínio das centenárias comunidades e suas hierarquias e invadem as ruas, os becos, as casas dos pobres e lá se reconstrói como sentido a desafiar os grandes sistemas, mistura-se com credos e ritos que emergem sabe-se lá de onde, o que também é outra sombra, e que moram no cotidiano. O absoluto permanece como sagrado e se revela no ocultamento do mistério.

Nada me encanta mais que o excesso de sentido, do que não pode ser apreendido ou limitado. Longe do ceticismo, mas bem longe mesmo, me deleito na busca daquele onde a alma se dissolve, a partir do qual tenho aprendido o que é a vida. Saio das sombras e encontro o outro, ou desço do Sinai, ou da Transfiguração, e me deparo com o singular, a pessoa, o coletivo da convivência, onde deve espraiar a cidadania e a fraternidade. Isso porque trago da sombra o que busquei e encontrei. Pode ser chamado de amor, misericórdia, ou graça, pois a sombra, ao contrário do se pode pensar, não é vazia. Tem apenas um significado que não pode ser alcançado no seu sentido objetivo. Quem procura o sentido, fica por lá a procurar e afirmar que de fato encontrou, só falta melhorar o que já está compreendido, estudar o estudado, conceituar o conceituado, e juntar um novo juízo para ficar ainda mais claro. O barraco vai ficando cheio de detalhes, vírgulas, exegeses de textos e dos textos que estão por detrás dos textos. Lá o morador das palavras não descerá para as vilas e esquecerá o que de fato é um humano.

Sombras, mistério, paixão e graça são fontes, não objetos.

Natanael Gabriel da Silva

domingo, 31 de julho de 2016

O DOUTOR


“Ai de vós, doutores da lei, porque retivestes a chave do conhecimento; vós mesmos não entrastes e impedistes os que desejavam entrar.” – Lucas 11.52

Doutor aqui é o intérprete de tudo o que é sagrado e é capaz de dizer, ensinar e determinar os passos, pé por pé, de como se deve fazer para agradar o Santo. O doutor possui a chave, porque detém autoritariamente o modo correto de interpretação, estabelece parâmetros e exigências para descortinar a verdade, como se fosse um espaço que só poderia ser compreendido e interpretado por ele. É isso que torna o outro dependente, serviçal, escravo, impotente e vítima do discurso. O doutor conhece os originais dos originais, esconde os trâmites e dúvidas das contradições textuais. Nunca irá confessar que há muito se estuda os primeiros versos sobre a Criação como poesia, mas não saberá nem o que isso significa e ocultará a informação aos dominados, com medo de que possam perder a fé. Achará que a poética é menor do que Lei e não saberá guiar a vida por princípios, apenas pelo império da norma. Deste modo o doutor oculta os questionamentos e os tenta superar com a explicação de que, afinal de contas, a fé não pode ser compreendida e interpretada completamente. Nisso o doutor tem razão, mas só chega nesse ponto quando não mais tem resposta, e acaba por se tonar este um esconderijo hermenêutico, com uma porta de saída do outro lado da gruta que ninguém conhece. Então, quando consegue a façanha, sai pra respirar pela porta artificial, como se tivesse vencido a dúvida sem resposta, para manter o domínio do que chamaria de essencial e necessário. Há um pouco que se deve conhecer bem conhecido, reafirma o doutor, confirmado e compreendido a partir do original, e este pouco é suficiente para levar ao cativeiro o cativo mediante apenas uma conjunção adversativa: mas. Coisa do tipo: Deus é amor, mas é também justiça; e o “mas” fica na memória do condenado à privação da liberdade, numa interpretação ruim e que coloca dimensões éticas opostas, como se o Perfeito fosse capaz de um algo diminuído por outro; atributos contraditórios que bem poderiam ser expressos no inverso, ou seja: Deus é justiça, mas é também amor – assim eu nunca ouvi, pois este discurso é libertário demais para quem não consegue sobreviver sem a justiça como instrumento de poder, mais humana que divina; imposta e interpretada como sentença condenatória. Sabe por quem? Pelo doutor, é claro! Assim o doutor mantém a autoridade e empurra a vítima do discurso para dentro da caverna, sem dar-lhe o mapa de uma saída, que o próprio doutor não tem, mas isso jamais irá confessar. Assim, o doutor que diz saber de tudo e autoridade letrada e estudada no assunto, vai indicando os passos para o cativo e que sempre acabam numa parede sem porta. Até pra voltar o aprendiz terá que depender do discurso renovador do doutor. Ele irá chamar as barreiras, e os becos do labirinto, de pecado, dirá das limitações do condenado, afirmará sua falta de fé, porque quem não encontra a porta, só não acha porque não tem fé. E o doutor trocou a pessoalidade da porta de João 10.9 pelo estudo sobre a porta, ou fez o salto do Cristo para cristologia como diz Harnack. Fez isso porque uma porta pessoa não permite o exercício do poder. Fez isso e se perdeu. Não haverá saída, porque o doutor é o Doutor das letras e dos escritos, o Hermes a interpretar a linguagem dos deuses, seja esta textual ou sobrenatural, e soma à autoridade da letra, o domínio das forças do mal, e lá vai o doutor dos milagres curar os famigerados e infelizes de todos os tipos de infortúnios.  Ficam os cativos escravizados pelo êxtase e momento quando o milagre, distorcido de seu evento social e cultural, se der então como realizado. E tem milagre todas as horas, é uma fábrica de milagres que tornaria o Ford e sua linha de produção, coisa de criança. Assim como nas fábricas de automóveis, os milagres dos doutores do sagrado não acontecem nas ruas, pelo caminho, no encontro com os miseráveis, nada disso. São milagres de templos da produtividade, suntuosos templos, cheios de assombro para que o milagre pareça ser ainda mais milagroso, cantoria e voz profética dentro da fábrica e suas máquinas em linha. Fica o milagre cativo feito produto como se o mundo não fosse o lugar da manifestação do divino.

Mas, aos doutores, tem um ai de vós pela criação da carga colocada sobre o outro, seja de medo, dúvida, dependência ou exigência (Lucas 11.46). Tem um ai de vós pela distorção da história e o uso ideológico do discurso (Lucas 11.47); tem sangue e morte, porque o doutor das letras e do sagrado mata sim o seu próximo e não raras vezes se apropria de seus bens. E se retroagir no tempo, sentenciava Jesus, irá encontrar a presença do manipulador, cuja conduta se repete, desde quando é possível de se falar de ter havido existência (Lucas 11.50,51).

Pois é, só sei que o Evangelho da Graça e do Amor, o Evangelho Maltrapilho, como diria Brennan Manning, continua escondido. Tão escondido que fica difícil saber o que de fato significa.

Natanael Gabriel da Silva



segunda-feira, 30 de maio de 2016

O PROFETA LIBERAL


“E não ensinará alguém mais a seu próximo, nem alguém, a seu irmão, dizendo: Conhecei ao SENHOR; porque todos me conhecerão, desde o menor deles até ao maior, diz o SENHOR; porque perdoarei a sua maldade e nunca mais me lembrarei dos seus pecados.” Jeremias 31.34

Liberal sim e por uma razão muito simples: Jeremias propunha um despertar do sagrado que fosse além dos conceitos. Estes, esgotados como determinação de conduta por meio dos ritos e da Lei, mostraram-se insuficientes e ineficientes. Liberdade, anunciava o profeta, de tal modo que permitisse uma radical libertação.

Radical e no plural. E foram muitas as liberdades anunciadas e esperadas. A primeira, clara no texto, seria a libertação do sofrimento causado pelo que, genericamente, o profeta chama de maldade e pecado. A segunda, a libertação do ensino, do conteúdo, do que é passado e fornecido como correto, e que vem no enigmático “e não ensinará alguém mais a seu próximo”. Trata-se do conhecer sem o aprender, porque este já supõe o domínio do conhecido por parte de alguém que ensina. A terceira libertação, em decorrência da anterior, seria a insubmissão ao modelo imposto pelos dominadores da religião. Ou seja, na segunda, está a libertação do conteúdo, ou do que é/deveria ser, e na terceira está a libertação do poder que ensina e estabelece a verdade. E quem foi que disse que  o poder tem a voz da verdade? Jeremias olhou toda aquela religião organizada, bem assentada nos princípios, sistematizada, e fez uma pergunta fundamentada na vivência, algo como um não tem nada além disso? Além, ou aquém, estava a profundidade que move a existência.

Na trilha dos estudiosos da profundidade da alma, Jeremias já suspeitava, ou afirmava, que o ser humano não se limita ao que conhece, e que tem uma forma de “conhecimento” antes do conhecimento, e a ética não depende apenas do saber o conteúdo, mas tem a sua percepção para além do que pode ser aprendido e ensinado. O ensinado vem depois, e quando aparece, já está pensado e interpretado. E o pensado e interpretado, no tempo de Jeremias, tinha seu acabamento na insuficiência dos ritos e da Lei. Tinha que exceder a justiça dos escribas e fariseus, diria Jesus muito tempo depois. E o exceder é a libertação da clausura da hermenêutica de cabresto. Libertando-se dos conceitos, liberta-se também dos que têm o domínio da interpretação.

Então Jeremias por intuição (já que não era filósofo), e se opondo aos frangalhos da religião oficial que o perseguia (já que era profeta), declarou os limites da lei quanto ao ensino, colocou a esperança como integrante e pertencente aos desejos sublimes da interioridade humana, e ainda descartou os mestres, senhores do comando, os mandantes das determinações, das regras e dos ritos, afirmando que aqueles já não seriam mais proprietários do sagrado. E conclui com uma socialização do imaginário religioso, pois pertencerá a todos, indistintamente todos, dos pequenos aos grandes, e colocou assim na ordem crescente, porque a ordem dos fatores aqui, altera o produto. Começa com os considerados sem importância, e estes irão ensinar os mais velhos, desde baixo (para não ser ideológico), e desde o interior da alma (para haver pureza). A purificação fará a pureza, e será o pertencimento antes da doutrina, ou do dogma. É o presente da limpeza, como dádiva e que vem do profundo da alma. A purificação, assim, vem antes do purificado saber o que seria purificação, vai limpando a causa o banindo a maldade e o pecado.

O profeta, desacreditando em templos, rituais e homilias, procurou encontrar o impulso para a espiritualidade desde dentro, desde o profundo. Liberdade dada e tida como um emergir, sem ensino, sem rituais, sem o domínio da Lei, sem sacerdotes, e até sem intérpretes; liberdade no sentido mais amplo possível. Só essa liberdade gera libertação. Jesus a chamaria de Graça, algo que até hoje a cristandade ainda tenta compreender o que significa, e por falta de compreensão procura colocar nela determinados limites, e quando o faz, a Graça deixa de ser Graça.

Um profeta liberal, e quem não é?

Natanael Gabriel da Silva

domingo, 22 de maio de 2016

O DISCURSO, A RELIGIÃO E O TEMPO

“Na verdade vos digo que não passará esta geração, sem que todas estas coisas aconteçam” – Marcos 13.30 

O texto religioso ou o bíblico, se preferir, é fundamentado em diretrizes universais e ideais para a existência humana. Seus ditos e narrativas, longe de se transformarem exclusivamente em dados objetivos e históricos, propõem sempre uma leitura que excede o seu provável significado. Assim, a abertura do Mar Vermelho, não é apenas um mar que se abre. Explicar cientificamente a possibilidade de um mar abrir-se ou não, não é suficiente para o texto. Por ser uma narrativa religiosa, o seu significado vai além da realidade e vira sonho. Neste caso um mar que se abre, como barreira intransponível, tem mais significado como símbolo de fé do que qualquer outra coisa que se possa afirmar a partir dele como acontecimento. Transforma-se assim em sonho para toda e qualquer opressão; símbolo universal de liberdade e superação de intempéries. É a porta de saída do mal para a terra que mana leite e mel. Não precisa mais que isso, pois todos desejamos o paraíso.

Os eventos sobrenaturais oferecem à literatura um fator de perenidade, isto é, a ocorrência poderá incidir sobre qualquer lugar ou tempo, inesperadamente, como se fosse um eterno presente. Não é observado como um passado, mas é tanto presente, como expectativa do futuro, daí a razão pela qual o céu apocalíptico vira o paraíso da criação. Deste modo, um mar que se abre é esperado como acontecimento provável até mesmo em vivências pessoais, bastando  a situação ser dada como limite e desespero, sendo o seu significado sempre renovado. O desespero de quem espera é sublimado pela esperança, porque o mar não é propriedade de tribos judaicas, e nem está no Oriente Médio, mas se dá como espalhado, e espelhado, no imaginário individual e coletivo. Em qualquer momento pode ocorrer outra vez, não será igual, mas parecido, não será nem mar, mas será a porta de saída de um deserto qualquer.

O discurso religioso, só é religioso, porque supera o evento e sobrevive no imaginário e vira metáfora. É visitado, ressignificado, vivenciado várias vezes e disponível para apropriação por meio do que é chamado, imprecisamente, de fé.

Deste modo, tal discurso, não padece de encerramento, mas sobrevive no encantamento. Não sofre de morte, matada ou morrida por meio de questionamentos, comprovação ou negação científica, porque é fundante cultural. Não termina e nunca deixa de ter validade. Os significados vão mudando por bricolagem e as aplicações se tornam múltiplas. Não há limites para ser reinterpretado, aplicado ou esperado. Deixou de ser um ponto aprisionado pela história. Não pertence a um único povo ou época. Nem aconteceu exclusivamente para resolver um problema específico. Torna-se universal e atemporal. Para que isto ocorra, o evento vai recebendo novas cores, vai se dando por atualizado conforme a cultura, época e necessidade. É sempre confirmado, ou como esperança, ou por semelhança e adaptação. Assim mantém o conjunto total de elementos que o fizeram nascer na origem. E a origem é sempre a síndrome do perfeito, e pelo texto, ela pode ser alcançada. Fica uma visão de quem a vê de longe, sem entender muito, e não precisará de confirmação da existência do Paraíso, porque a certeza vem antes da confirmação. Neste caminho, se o evento pode ser confirmado ou não, pouco importa. Mesmo que haja indícios, seja de confirmação ou de ausência, o que permanece é o discurso. É por conta disso que a ênfase que dá sobre se em Jericó havia ou não muralha, já que nenhum indício foi encontrado, não faz qualquer diferença. O imaginário religioso não pode perder Jericó e irá declarar, sentenciar e até mesmo determinar que as muralhas lá estiveram e que hoje são parte das forças do mal que têm que ser derrotadas ao som de trombetas. Surge então a atualização e venda de trombetas; e haja vuvuzelas para os transformadores de mitos em lucros nas comunidades pós-modernas! A muralha, não é mais um muro físico, nem o Mar Vermelho um ajuntamento de águas, nem as trombetas são trombetas. Deixaram de ser coisas e se tornaram ideias e crenças.

Comecei mencionando Marcos. E no texto a expressão "geração", não é geração, apesar de muitos vincularem a narrativa à Jerusalém, como confirmação de uma profecia. A profecia não necessita de confirmação pra ser profecia. Quando ocorre, ocorre. Quando não, ainda está para se cumprir. Não é possível fazer a negação de uma profecia, porque o sim já está implícito no discurso. Neste caso, geração aqui em Marcos pertence a qualquer tempo, é a de hoje, foi a de ontem, será a do futuro, e enquanto houver vida. Geração é a iminência do agora, justamente porque não foi ontem. Poderá ser amanhã, mas é apenas uma questão de um depois, e as coisas irão finalmente, e fatalmente, acontecer. Se não aconteceram, é porque não chegou o tempo. Espera-se pra agora, daqui a pouco, amanhã, e quem sabe no quando dos filhos dos filhos. As palavras devem continuar válidas, precisam se tornar perenes, e ficamos todos à espera do que as palavras dizem, do que as profecias apontam, a superar qualquer negação, contradição ou descrédito.

Não entendeu? Então bem-vindo ao discurso religioso.


Natanael Gabriel da Silva