sexta-feira, 12 de agosto de 2016

SOMBRAS

“Os quais servem de exemplo e sombra das coisas celestiais…” Hebreus 8.5

O complicado livro de Hebreus e que demorou para ser incluído entre os denominados textos sagrados, tem um autor que já falava do Eterno como aquele que tem uma reserva de sentido. Ninguém sabe se Hebreus é um tratado, uma carta ou um sermão. Não é possível afirmar quem seria o autor, nem quando teria sido escrito. Tem um judaísmo helênico como conteúdo, mas segue uma estrutura literária judaica. O livro faz um contrabando do imaginário religioso do Antigo Testamento, em seus ícones mais significatios e os supera em significado transformando tudo o que era, como se não fosse, ou tivesse sido apenas pela metade. Quando se pensava que o caminho do sagrado tinha sido vencido, lá vem Hebreus assumindo o discurso da sombra.  Do imaginário religioso judaico o autor de Hebreus retira a eugenia a partir de Abraão, o templo, os sacrifícios, a Lei, e por aí se vai, e os transpõe para a pessoalidade, ou corpo, como diria Paulo em Colosensses 2.17, do Cristo. Deste modo Hebreus transforma o que parecia real como sombra. Pensava-se que fosse real, histórico e encerrado, com liturgia e código, mas tudo então é transformado em rastros, no caso, sombras. Assim se dá o Cristo, que não é um templo, no sentido objetivo. Nem Lei, no sentido positivo, ou um rito no sentido estético. Cristo é pessoa, corpo, e não é possível um pertencimento, com e nele, por meio do imaginário superado e tido como sombra. Com outras palavras, Cristo, pessoa e corpo, interage com o outro por meio do relacionamento, aproximação, interiorização e pertencimento. Não mais seria por meio dos ritos, muito menos de templos. Ao pertencimento que torna o discípulo pertencido a Cristo, o vínculo é chamado de fé. É por esta razão que o capítulo da fé está em Hebreus. Esta é a substitutiva dos ícones do sagrado, que se tornaram sombra, e se realizaram na pessoa. Todavia, acaba o autor de Hebreus a penetrar em outra sombra, não limitada em sentido como a anterior, mas exatamente em razão de seu contrário, por ter um excesso de significado; também é sem a objetividade, como no caso das sombras que foram sucedidas, e igualmente possui múltiplas possibilidades interpretativas.

Conversar sobre teologia é dialogar sobre estas sombras. Todos igualmente procuramos, por meio da lógica de um discurso, identificar os traços de quem lá está. E é quem mesmo, por não ser coisa, ou um inventado. O segredo, e o que faz da teologia, teologia, é saber que Ele está lá. O Cristo é o próprio conteúdo, mas tem que ser sombra para que não haja aquele que O tenha sob domínio hermenêutico. Cada qual vai desenhando o contorno que vê e é capaz de afirmar com toda a segurança que um dia conseguiu limitar a sombra pelas palavras, juntou expressões, deu um corpo que parecia ser o da sombra e irá defender o encontro como o sublime como se tivesse sido o único possuidor e detentor do real sentido e conteúdo. Sairá fundando grupos, organizando sistemas. Os tais serão objetivos, terão endereço, liturgia, escala de comando com apóstolos e apostolas, comandará grupos com afirmações categóricas que dará mais verdade ao conteúdo das palavras que tentaram desvendar as sombras, e porque não dizer, a aprisionaram. Só que um dia este, o possuidor e detentor do discurso único e correto, seja singular ou coletivo, acaba. E o excesso de sentido, para a sobrevivência do imaginário que não pode ser contido, permanece, sai do domínio das centenárias comunidades e suas hierarquias e invadem as ruas, os becos, as casas dos pobres e lá se reconstrói como sentido a desafiar os grandes sistemas, mistura-se com credos e ritos que emergem sabe-se lá de onde, o que também é outra sombra, e que moram no cotidiano. O absoluto permanece como sagrado e se revela no ocultamento do mistério.

Nada me encanta mais que o excesso de sentido, do que não pode ser apreendido ou limitado. Longe do ceticismo, mas bem longe mesmo, me deleito na busca daquele onde a alma se dissolve, a partir do qual tenho aprendido o que é a vida. Saio das sombras e encontro o outro, ou desço do Sinai, ou da Transfiguração, e me deparo com o singular, a pessoa, o coletivo da convivência, onde deve espraiar a cidadania e a fraternidade. Isso porque trago da sombra o que busquei e encontrei. Pode ser chamado de amor, misericórdia, ou graça, pois a sombra, ao contrário do se pode pensar, não é vazia. Tem apenas um significado que não pode ser alcançado no seu sentido objetivo. Quem procura o sentido, fica por lá a procurar e afirmar que de fato encontrou, só falta melhorar o que já está compreendido, estudar o estudado, conceituar o conceituado, e juntar um novo juízo para ficar ainda mais claro. O barraco vai ficando cheio de detalhes, vírgulas, exegeses de textos e dos textos que estão por detrás dos textos. Lá o morador das palavras não descerá para as vilas e esquecerá o que de fato é um humano.

Sombras, mistério, paixão e graça são fontes, não objetos.

Natanael Gabriel da Silva

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