sexta-feira, 25 de maio de 2012

NASCER OUTRA VEZ

(O texto abaixo foi publicado em março de 2009, no boletim da Igreja Batista Central de Sorocaba. Em princípio tinha outros termos ainda mais ousados e herméticos, da linguagem própria daquele tempo, mas que foram substituídos sob pena de incompreensão. Foi bastante criticado, negativamente é claro, e talvez seja essa a sua contribuição. Na dinâmica da informalidade da língua, já está desatualizado. Eu mesmo, em algum momento, ri com o que escrevi, e antes que caduque de vez, se é que isso já não aconteceu, fica aqui postado neste espaço público. Tenha paciência, é só um texto)


 
Mano, se você pensou que vou falá de João 3, tá ligado?, errou. Depois falo disso. Tô falando de game, tá ligado? Também não pense que vou dizê que jogá game tá errado, véio. Tem game da hora, meu. Tbem não tô defendendo os viciado em jogo, tá ligado? Qualquer vício, cara, tem que sê reprô, meu. Ficá morgando na máquina, meu, sem praticá esporte, tipo assim, ficá sem trabalhá, sem igreja, não tá com nada, tá ligado?

Quero falá de game, mas de outro, tipo assim, achá que a vida é um game, tá ligado? No game, você fica do mal ou do bem, e não faiz diferença. É isso aí. Tem game que você fica matano gente, tipo passano por cima de gente com carro e ganhando ponto cada vez que mata alguém, tá ligado? Parece brincadeira, mas o negócio é que a vida fica vazia, meu. Fica controlada pela gente, tipo, basta utilizá o controle. É meu! A vida não é isso, tá ligado? Primeiro porque não é a gente que controla. Depois porque não dá pra ficá escolhendo o lado bom ou ruim na hora que a gente qué, tá ligado? Não tem essa não, numa hora você é do mal, noutra do bem. Tem não, cara. Depois voltá a sê do bem, e quando qué volta a sê do mal, detonando tudo. Cara, isso dá um nó na cabeça da gente. Daí você fica copiando e admirando bandido, tá ligado? Tipo assim, falá como bandido, tá ligado?, se vestir como bandito, tá ligado?, ser irresponsável como um bandido, tá ligado? Um bandido gasta tudo o que tem, porque depois fica fácil, tipo, tirá de outra pessoa, tá ligado? Daí você acha que não precisa ser responsável com a vida. É cara, isso não é beleza, mano! A vida, mano, a gente constrói dia-a-dia e não tem como reiniciá a máquina, tá ligado? Se der tilt, se a máquina da vida travá, acabô meu, acabô mesmo, não tem como deletá ou apertá o power pra dá um shut down. Não tem programa de inicialização, nem anti-vírus, cara. Apavora, mano.

Mano, a vida não é um game que, quando a gente morre, nasce noutro canto com toda a energia recuperada meu. A vida é diferente, é coisa séria, tá ligado? Você vai por um caminho e não tem volta. Sabe aquele game que você fica tentando encontrá uma saída? O negócio é que no game sempre tem uma saída, você procura, procura, se cansa, dá volta, volta pelo mesmo caminho, passa de novo e fica procurando até encontrá a tal porta. Meu, isso só acontece no game cara: sempre tem um jeito. Você acha que a vida é um game?  Na vida não tem disso não! Tem hora que você entra num canto, tá ligado?, e não tem porta, cara. O pior é que quase sempre não dá pra voltá! Isso é mal, muito mal. Na verdade, meu, mesmo que volte, nunca será o mesmo, tá ligado? E quem já viveu no mundo dos babados, bicho? Véio, dificilmente não vai deixá de ser meio lerdinho, tá ligado? Esse negócio do cara achá que vai usá droga e depois saí quando quisé, meu, é furado. Se conseguir sair, nunca mais será o mesmo meu, nunquinha, du-vi-do-dó.

A vida é uma só, véio. Se você detoná, acabô, meu, acabô mesmo. Não tem esse negócio de nascer noutro lugar. É daí que entra João 3, tá ligado? Nascer de novo mano, não é nascer noutro lugar. No game você nasce noutro lugar e começa de novo a matá inimigo daqui e dali que você já sabe onde tá. Daí fica fácil. Seria bom se a vida fosse assim, tá ligado? Sabe a besteira que você fez? Pois é, se fosse no game, você voltaria pro passado e consertaria e não deixaria o carinha te matá, meu. Véio, na vida não tem disso não. A besteira fica, mano. É aí que entra João 3. O Novo Nascimento de João não é nascer em outro lugar não. É nascer no mesmo canto, enfrentá coisas nova, só que de modo diferente, tá ligado? Você não nasce noutro lugar. Você nasce de novo, véio, dentro de você mesmo. É um negócio que apavora, meu! Detona, cara, muito déis, loucura, véio. Não dá oportunidade pra você voltá no tempo, isso não dá, mas dá oportunidade pra você consertá o futuro mano. Parece game, só que diferente. Você muda o que vem depois.

Desculpa aí cara, mas se você continuá como tá, vai se dar mal meu. Você precisa mudá o futuro, tá ligado? Tem que pará de achá que a vida é um game, véio. Você não tá no controle coisa nenhuma meu. Tá nada. Você tbem não fica achando que pode ficá dum canto pro outro, ora do mal, ora do bem, nada disso. O que você precisa não é nascer noutro canto, passá de fase, morrer e nascer quando quisé mano. Sai dessa cara! Você precisa nascer de novo dentro de você mesmo. Mó legal cara. É isso aí, João 3 detona! Apavora! Você precisa nascê de novo e só Jesus pra fazê isso meu. Daí, véio, é só alegria. Fui.

pr. Natanael Gabriel da Silva

SEM DECRETO




“Então o rei Dario escreveu aos homens de todas as nações, povos e línguas de toda a terra: Paz e prosperidade! Estou editando um decreto para que em todos os domínios do império os homens temam e reverenciem o Deus de Daniel.” Daniel 6.25,26

Eu sei que a decisão de Dario teve um efeito político favorável; que observado o evento para quem vive a pós-modernidade dos nossos dias, quase não a compreendemos. Religião e política são duas coisas complicadas, e não raras vezes se associam e se beneficiam contra aqueles que afirmam defender.

Foi contra tudo isso que Jesus lutou. Combateu os decretos, especialmente os de natureza religiosa. Mostrou o que significa servir ao Senhor da Casa de Oração, esteve diante do poder, conversou com ele, não pediu favores e, portanto, nunca ficou devendo nada a ninguém. Só que disse que onde estiver o seu tesouro, aí estará também o seu coração. Disse mesmo. Afirmou que do coração procedem todas as intenções da alma e sempre, quando conversava com alguém que lhe pedia alguma coisa, ia logo perguntando, pra muitos, algo que poderia ser interpretado assim: “Em relação ao que me pede, o que você acha? Como sente isso dentro de você? Qual a possibilidade de Deus lhe defender? O que sente?” Daí fazia o que precisava ser feito, com ou sem aprovação, por fim se deu em ato solitário. Em muitas ocasiões colocou-se sozinho na presença de Deus e ainda recomendou que cada pessoa deveria era entrar no próprio cubículo, onde só cabe quem entra, e ali, na mais profunda solidão, iniciar um diálogo com Deus. A cruz foi um cubículo e acho nunca houve um lugar mais solitário que aquele.

Sem decretos. O encontro com o Senhor é um mistério absoluto do coração. Lugar da liberdade completa e centro de decisões. Nada de imposição, política, ou manipulação. Lá você, é você; um você sem corpo, sem aparência, um autêntico puro. Apenas o Senhor e você, nada e ninguém mais.

pr. Natanael Gabriel da Silva

quarta-feira, 23 de maio de 2012

AMOR, PRINCÍPIO E FIM




[Jerusalém] “Chora e chora de noite, e as suas lágrimas lhe correm pelas faces; não tem quem a console entre todos os que a amavam; todos os seus amigos procederam perfidamente contra ela, tornaram-se seus inimigos.” Lamentações 1.2

Se você leu o texto acima, deparou-se com um dos mais trágicos registros do Antigo Testamento; quase uma descrição jornalística da destruição de Jerusalém. A decepção foi com a falta de socorro: quem a amava, deixou de amá-la. Jerusalém ficou só. Iria ficar só mesmo e era apenas uma questão de tempo. Olhou para o Senhor, observou os reinos prósperos que a rodeavam e preferiu confirmar a estes o próprio futuro.

O amor de pessoas, ou de reinos, também falha. Não deveria ser assim, mas é. Todos sobrevivemos num emaranhado de relações múltiplas, desejando respirar, cada qual, os próprios sonhos e desejos. Por essa razão somos indivíduos, indivisíveis, numa unidade complexa desconhecida até para si. Você sequer pode confiar no próprio amor; como entregar o futuro para outrem? Pois é, esta é a desconfiança que gera a guerra, a solidão e o abandono. Só que sozinhos também, não sobrevivemos. Que coisa triste: precisamos dos outros para nos tornar pessoa, como diria Carl Rogers e, ao mesmo tempo, não sabemos conviver.

À parte disso, vale a sua integridade. Só você sabe a razão de amar, suas motivações e afeto. A fonte dessa integridade, honestidade e transparência, é o Senhor. Nem Jerusalém suportou um amor efêmero. Por conta disso Jesus recomenda: primeiro amar a Deus sobre todas as coisas e depois o próximo como a si mesmo. Nesse caso, a ordem dos fatores altera o produto. Só se aprende a amar com o Senhor: Ele é o princípio e o fim do amor. Nele, não há solidão.

pr. Natanael Gabriel da Silva

quarta-feira, 16 de maio de 2012

O LIMITE DO NADA



“e disse: Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor.” – Jó 1.21

Bonito, mas incompreensível. O insucesso é quase um atestado de insuficiência social. Ninguém, após a quebradeira, volta para casa e agradece a Deus por ter perdido tudo. É mais fácil o questionamento, o sentimento de impotência, a dor, a incompreensão e não raras vezes, a depressão, a doença que separa a vontade e o desejo, quase numa ruptura. O desejo levou você onde o corpo não suportou; um ou outro entrará em estado de fragmentação, talvez os dois.

Jó manteve a integridade porque não separou a vontade do corpo. A nudez, para Jó, era o limite do nada. Ninguém consegue perder mais que a roupa, e o corpo para ele já era o bastante, por ser a habitação da vida. O futuro já estava traçado, e ninguém se despede da vida com o que ajuntou. Perder faz parte, porque tudo o que o ser humano construir, com certeza perderá, pelo menos para si. O Senhor o deu, e eu aproveitei; o Senhor o tomou, e não me fará falta, basta-me o corpo nu, a vida e a consciência de quem sou e, principalmente, quem Deus é. Difícil de entender. Nem os amigos de Jó acharam que isso poderia ser assim.

Não é uma notícia boa para um dia que começa: tudo o que você fizer, construir, pensar, discutir, lutar, desejar ou buscar, pelo menos pra você, já está perdido, antes de ser possuído. Se você perdeu a vida pelas coisas, quando estas forem embora, a vida irá com elas. Não foi o caso de Jó.

pr. Natanael Gabriel da Silva

terça-feira, 15 de maio de 2012

UMA PALAVRA, APENAS




“Maldito o dia em que nasci; o dia em que minha mãe me deu à luz não seja bendito.”

Dia, ou tempo, ruim pra Jeremias. Nada mais, nada menos, que Jeremias, o profeta. Possivelmente depois, diria que as misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque elas não têm fim. Só que isso foi depois, porque parece que a chegada ao Paraíso ou Terra Prometida, sempre vem na trilha de um caminho duro, um deserto. Feliz foi Adão que já nasceu dentro do jardim. Acho que foi o único, e nem assim foi garantia de obediência.

Só que Jeremias não estava em conflito com o Senhor, nem com ninguém, mas consigo. Está impaciente com as suas limitações em não conseguir suportar o sofrimento. Inconformado, aquele povo tinha tudo para não passar pelo que passaria, mas escolhas são escolhas, e às vezes, ou quase sempre, os caminhos do deserto são resultado de uma geografia construída. A pessoa olha para o Senhor, o Paraíso, e escolhe colocar no meio do caminho um deserto. O deserto não estava lá, mas aparece. Deserto pequeno, longo, médio, com bastante penhasco e pedras, ou só areia, aí o ser humano, individual ou coletivo, vai colocando a gosto.

No mesmo texto, Jeremias celebra a presença de Deus e lamenta a própria existência, pra confessar que somos vítimas das nossas próprias escolhas e se, numa remota possibilidade, bem remotíssima, fosse possível, num sonho, uma vida só com base na recomendação de uma única palavra, amor, de imediato não haveria mais guerras, nem gente passando fome, e não seria necessário nem religião. Ninguém caçando ninguém, nem drogas ou traficantes. Uma só palavra e o mundo já não seria mais o mesmo, e nunca mais alguém se lamentaria de ter nascido. Começar a amar: será que conseguiremos um dia?

pr Natanael Gabriel da Silva

sábado, 12 de maio de 2012

EVA, VIDA


Eva, mais que um nome. Até então homem e mulher eram apenas indicações de gêneros. Eva só aparece depois de tudo perdido, e a vida que também se perdera no Paraíso, agora se torna nome e sentido da mulher-mãe. O nome dela vem depois, bem depois do Disse Deus. Depois de tudo criado, bem depois. Vá lendo a poesia do Disse Deus e logo irá encontrar o primeiro texto do cotidiano, dia comum, um passeio sem qualquer pretensão, ocasião qualquer e pela primeira vez a desobediência é conhecida. O Disse Deus é poético, mas a desobediência é trágica. Os textos têm que estar próximos para haver o choque literário, tudo fica meio pra baixo, gente se escondendo, discussão da culpa de um e de outro, medo, muito medo, vergonha também, não dá mais pra ficar olhando as flores, é melhor ficar escondido num canto e quem quiser achar que te procure! Tudo isso teria começado com quem? Com a ela! Ela quem? Ora, ela! Que nome a gente vai dar pra ela? Que tal Eva, ou seja, Vida?

Daí a serpente havia conversado com aquela que seria Vida e veio apontando que o negócio de não comer do fruto proibido era engambelação. Vida, você não sabe o que tem de bom do lado de lá da desobediência! Coisa fina e só vai ficar sabendo se degustar o doce sabor da contrariedade, o mal, que você não sabe o que é, está lá depois da mordida, vamos Vida coma! Acho que foi aquela voz de telefonista, meio doce, um pouco sussurrada, lenta, uma espécie de melancolia sedutora. E a Vida não resistiu. Quando Adão aparece em cena, a Vida não era mais a mesma. E se você pensar que Adão era esperto, pode estar enganado/a, pois até a serpente sabia que não valia a pena investir nele.

Daí a vida foi punida. Adão, homem, do barro e da terra foi punido com o trabalho, também da terra. Agora a Vida, Eva, foi punida com a vida: Com dor terá filhos. Foi a primeira condenação dada à Vida, antes de perder o paraíso. Antes da condenação da morte. Antes de tudo, a primeira coisa da Vida é sofrer pela vida. A vida vai sofrer desde o início do início. A Vida olhou para a liberdade e para o paraíso, colocou tudo numa balança de feira, daquelas antigas com dois pratinhos, e pesou a decisão como se fosse uma cabeça de alho. Quem consegue segurar a Vida? Ela desejou o prazer (comer do fruto); o que era belo (agradável aos olhos); e, principalmente ser livre. Sonhou que a liberdade traria o conhecimento de tudo e mais um pouco.

Eva poderia ter sido mãe antes. Só que não foi. Já pensou se tivesse nascido alguém antes disso tudo, sem a dor, sem que a vida representasse um contínuo sofrimento, um filho da perfeição, o único ser humano perfeito da Antiguidade remota? Acho que teria sido bom, mas hoje só sei ver a vida como esse lugar da luta, um leão por dia, ter medo, medo de tudo e ficar sonhando com o retorno ao paraíso. E não foi Eva a mãe de tudo isso? Eva era mais que um nome. Você olha pra Eva e fica com a pessoa que se chamou Vida, e eu olho a Vida que tinha o nome de uma pessoa, que geraria outras vidas e só faria isso com muito sofrimento e dor, tanto pra quem nasce, como pra quem faz nascer. Depois fica doendo o tempo todo, sem parar, nunca mais sossega. Dói a vida inteira. Uma hora dói de saudade do tempo quando era o começo, outra dói porque gostaria que alguma coisa fosse diferente. Dói de um lado e de outro; corpo e o coração. Dói até quando não tem dor. “Ser mãe é padecer no paraíso”, talvez seja isso.

pr. Natanael Gabriel da Silva

quinta-feira, 10 de maio de 2012

PUREZA E AMOR

   
“Quando Israel buscava descanso o Senhor lhe apareceu no passado, dizendo: Eu a amei com amor eterno; com amor leal a atrai.” – Jeremias 31.2b e 3.

Está no feminino, porque o Senhor fala dos seus como se estes fossem uma “virgem”. Pureza completa, sem destino ou rumo na vida. Ingenuidade, é isso. Virgem, inapropriada para o mundo. Sabe quando você vê aquela pessoa que, de tão pura, não irá nunca se localizar na vida, porque é como se o mundo não a merecesse? Você se lembra do Gênesis, pureza e nudez, nudez e pureza, duas coisas ao mesmo tempo e juntas?

Pois é o amor surgido na pureza, também é puro. Está bem na raiz. Não tem nada antes, só depois, e o depois é manter e preservar a pureza. Amor que nasce com o nascido e nunca acaba: “Eu a amei com amor eterno”. Irresistível amor que atrai, puxa, chama, agarra e nos aproxima dEle. Amor leal, com ótimas intenções, porque não tem conteúdo, só tem amor. Não é justificável. Sabe quando alguém diz: “Amo ao Senhor porque...” Tire o porquê. Esqueça. Não precisa de razão. Muito menos de motivo. Um pai, ou uma mãe, não precisa de nada pra amar o filho, só ama. Parece que nunca terá fim, e será só amor.

Amor que nunca acaba (eterno). É alto, muito alto, como um para cima que não tem fim. Só que é curto, porque nos atrai para o Senhor, tão perto que é como se fosse colado, mais que isso, dentro do coração. Não dá pra compreender este amor que nos acompanhará hoje, e nem precisa. Só o amor explica o amor.

pastor Natanael Gabriel da Silva